
Mesmo diante das dificuldades previstas, os cristãos são convidados a encarar o futuro apocalíptico com esperança
Da redação | 19.out.2024 | 12h32
Comentário de Valdinei Ferreira. É sociólogo, pastor e professor da Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente (Fatipi) e pesquisador na área de espiritualidade e saúde mental
John Morales, meteorologista especialista em furacões, chorou ao falar sobre o furacão Milton em uma emissora no sul da Flórida. Dias depois, Rachel Krahenbuhl, enviada para cobrir os estragos do furacão, embargou a voz e também chorou ao vivo na Globonews, sendo consolada pela apresentadora Andrea Sadi.
O sentimento que está se propagando é o de que podemos ser varridos da superfície da Terra. O que antes parecia conversa de religiosos se tornou uma preocupação cada vez mais frequente em círculos científicos: o mundo pode, de fato, acabar para os humanos, e estamos falando de um cenário que pode se concretizar nas próximas décadas.
Cristãos divergem sobre os detalhes do fim do mundo, mas mantêm uma atitude esperançosa. O evangelho de Lucas sugere que os cristãos enfrentem os cataclismos, fomes e guerras —sinais do fim dos tempos— de cabeça erguida, com a expectativa de que a redenção finalmente se aproxima.
Mesmo diante das dificuldades previstas, os cristãos são convidados a encarar o futuro apocalíptico com esperança. A crença de que o fim trará um novo começo contribui para a coragem e a serenidade com que muitos lidam com um tema que gera ansiedade na população em geral.

Essa confiança na proteção divina em meio a eventos catastróficos é a base para a imperturbabilidade quase estoica dos cristãos. As palavras de Jesus são frequentemente lembradas: "Então, lhes disse: Levantar-se-á nação contra nação e reino contra reino; haverá grandes terremotos, epidemias e fome em vários lugares, coisas espantosas e também grandes sinais do céu. Contudo, não se perderá um só fio de cabelo da vossa cabeça" (Lc 21.10,11,18).
Para quem observa de fora e não compartilha desse sistema de crenças, a tranquilidade com que o fim do mundo é discutido entre evangélicos pode soar como alienação ou arrogância, como se se julgassem mais estimados por Deus. No entanto, avaliar um sistema de crenças fora de sua lógica e contexto é, por si só, uma arbitrariedade.
Foi na confiança na proteção divina que os cristãos do Império Romano encontraram forças para enfrentar a perseguição, prisão e até o martírio no Coliseu. Hoje, no Brasil, a esperança no retorno de Jesus e no cuidado divino floresce entre evangélicos de periferias, que encontram na fé um recurso cognitivo e emocional para enfrentar a violência e as inseguranças cotidianas.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) reconheceu, em 2022, o impacto das mudanças climáticas sobre a saúde mental das populações. Em suas diretrizes, a OMS recomenda mobilizar saberes tradicionais presentes nas comunidades locais, capazes de promover resiliência psicossocial. Com mais de 2.000 anos de história lidando com o tema das catástrofes, o cristianismo é um saber tradicional que merece ser considerado, especialmente por sua presença em todo o território nacional.

O sociólogo Max Weber observou que as religiões são construções históricas, mais do que lógicas, e essa visão é valiosa para entender a postura dos evangélicos diante do fim do mundo. A crença de que ao fim se seguirá um novo começo e de que nada ocorre sem a permissão divina não gera indiferença, como se esperaria sob um ponto de vista puramente lógico.
A esperança no retorno de Jesus, além de oferecer resiliência emocional diante das catástrofes, pode dar novo significado às ações para enfrentar a crise climática. O teólogo inglês N.T. Wright cunhou o lema que usei no título deste artigo: "Jesus está voltando, plante uma árvore." A ideia é simples: se toda a natureza será restaurada com a volta de Jesus, por que não reafirmar essa crença colaborando com a restauração desde já?
Fonte: Folha de S. Paulo
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